Medicina Hiperbárica. Ótimos resultados na cicatrização

Com a inauguração do Instituto de Medicina Hiperbárica de Passo Fundo, os pacientes da região têm acesso a um tratamento inovador e de qualidade, plenamente aceito na área médica mundial, utilizado no trato de feridas de difícil cicatrização, traumas, queimaduras, pé diabético, infecções, entre outros. Apesar da eficiência comprovada em trabalhos científicos, existem apenas 85 clínicas no Brasil, sendo oito no Sul, que oferecem o tratamento. “O número está abaixo da necessidade, acredito que o país comportaria aproximadamente 500 clínicas. Nos Estados unidos são 800 em atividade”, ressalta a coordenadora de ensino da Sociedade Brasileira de Medicina Hiperbárica e chefe do serviço de hiperbárica do Hospital 9 de Julho de São Paulo, Mariza D´Agostino Dias.

No Instituto, que fica localizado no hospital IOT, foi instalada uma câmara hiperbárica. O médico hiperbarista Juliano Arenzon, explica o funcionamento do aparelho. De acordo com ele, a câmara comporta oito pacientes, sendo que em seu interior o ambiente é pressurizado, com pressão uma vez e meia maior que no ambiente comum. Quando atingida a pressão para o tratamento, o paciente recebe oxigênio puro através de uma máscara. “Pesquisas comprovaram que o principal motivo para feridas e traumas não cicatrizarem é o pouco oxigênio que chega até o local. Com este procedimento fazemos com que muito mais oxigênio chegue até as feridas”, destaca o médico. Para demonstrar a potência da câmara, o médico revela que a quantidade de oxigênio recebida dentro do aparelho pode ser até 20 vezes maior que em um ambiente comum. 

A doutora Mariza D´Agostino Dias, que palestrou em Passo Fundo durante a inauguração do Instituto, dá mais detalhes sobre como funciona o tratamento, as indicações e os resultados.
(Coordenadora de ensino da Sociedade Brasileira de Medicina Hiperbárica e chefe do serviço de hiperbárica do Hospital 9 de Julho de São Paulo, Mariza D´Agostino Dias / FOTO DIVULGAÇÃO)
Diário da Manhã- Como funciona o tratamento com a câmara hiperbárica?

Mariza D´Agostino Dias - A câmara hiperbárica é um equipamento que permite fazer um tratamento chamado oxigenoterapia hiperbárica, no qual se trabalha com oxigênio puro, e com a elevação da pressão arterial de forma lenta e progressiva. O tratamento não inclui medicação, mas ela pode ser utilizada em casos específicos, por exemplo, se um paciente estiver nervoso e tiver dificuldade de ficar em um local relativamente fechado, pode se utilizar medicação para acalmá-lo, mas ela não faz parte do tratamento tradicional.

DM- Para que doenças o tratamento é indicado?

Mariza- É indicado para várias doenças nas quais se observa falta de oxigenação como ferimentos e traumatismos. Em todos os lugares onde ocorre modificações no tecido se observa falta de oxigênio o que dificulta a cicatrização. O paciente é indicado pelo seu médico ao profissional hiperbarista que realiza uma avaliação da lesão e do paciente para ver se o tratamento se aplica naquele caso, se a resposta for positiva, o paciente vai sendo submetido ao tratamento com avaliações periódicas. Depois das primeiras três ou quatro sessões, a lesão é novamente avaliada e isso ocorre constantemente.

DM- O que o paciente sente dentro da câmara?

Mariza- A sensação é similar a de quando se sobe ou desce uma serra, ou dentro de um avião, porque existe uma modificação de pressão. A mudança é bastante gradual, sendo que o paciente percebe que ocorre uma mudança na pressão e acomoda o ouvido. É um procedimento fácil e não é desconfortável. Depois das primeiras sessões o paciente já está habituado.

DM- Em média quantas sessões o paciente precisa realizar?

Mariza- Uma sessão na câmara pode durar de 90 a 120 minutos, o número de sessões depende do problema do paciente, quadros mais agudos, como queimaduras e traumas, nos quais o tratamento precisa iniciar imediatamente, a média de sessões é de 10 a 20. Problemas crônicos em que a lesão resiste a meses, como ferida em pé de diabético, exige mais sessões, uma média de 40. Geralmente é realizada uma sessão por dia, na maioria dos casos com intervalos nos finais de semana

DM- O paciente está seguro dentro da câmara?

Mariza- A segurança do aparelho é certificada, sendo que o médico e um diretor de segurança supervisionam o que ocorre dentro da câmara através de um painel de controle, que além de permitir comunicação com os pacientes, também possui controle de temperatura, umidade, quantidade de oxigênio e todos os parâmetros importantes para o tratamento. Um técnico de enfermagem acompanha os pacientes dentro da câmara. O médico pode acessar a câmara rapidamente se precisar entrar para retirar um paciente.

DM- Existe contra-indicação?

Mariza- Normalmente o paciente não realiza a sessão quando está com um problema clínico que naquele momento esteja descontrolado, por exemplo, paciente que é hipertenso e naquela hora esta com a pressão exageradamente alta, ou que seja diabético e a glicose está baixa. Existe uma série de aspectos técnicos que precisam ser verificados por isso a necessidade de um médico hiperbarista, que é o profissional capacitado para este tipo de situação.

DM- Quais os resultados do tratamento?

Mariza- Várias pesquisas publicadas em todo o mundo comprovam os resultados do tratamento, um destes mostra que, no caso de pacientes que possuem feridas devido às diabetes e realizam sessões na câmara, ocorre uma redução na quantidade de amputações. No caso dos pacientes que não fizeram o tratamento 33% precisaram de amputação, já os que fizeram o tratamento somente 8% precisaram amputar, isso é uma diferença muito grande. Vários outros trabalhos mostram resultados semelhantes.

DM- O SUS oferece o tratamento?

Mariza- O SUS ainda não oferece cobertura para o tratamento. Uma questão importante é que desde junho do ano passado os convênios são obrigados a dar cobertura ao tratamento hiperbárico.

DM- De que maneira é realizada a especialização médica?

Mariza- A especialização do médico ainda está sendo regulamentada pela Comissão Nacional de Residência Médica, então ainda não tem uma residência definida. Quem faz a formação destes médicos é a Sociedade Brasileira de Medicina Hiperbárica. Primeiro ele precisa ser habilitado em uma área clínica ou cirúrgica e depois ele faz a habilitação hiperbárica. Além da atuação no tratamento de oxigenoterapia hiperbárica, a especialidade é utilizada em outras áreas em que a questão da mudança de pressão é importante. Um caso acompanhado por médico hiperbarista é os trabalhadores da construção civil que realizam a construção de túneis e ficam submetidos a pressão elevada. Nesta situação o profissional é um médico do trabalho, mas com formação em medicina hiperbárica. Outra área que o profissional atua é na questão de acidentes de mergulho, ele também pode avaliar se a pessoa tem ou não condições de saúde para mergulhar.

DM- Há quanto tempo existe o tratamento no Brasil?

Mariza- As primeiras câmeras no Brasil foram instaladas na década de 80, mas tinham um uso muito irregular. Depois de 1992, quando se iniciou o serviço na Universidade de São Paulo, passou-se a trabalhar de maneira mais cientifica, com uma boa formação médica. A oxigenoterapia hiperbárica é regulamentada desde 1995 pelo Conselho Federal de Medicina, e é um tratamento aceito plenamente na área médica, mesmo assim existem somente 85 clínicas no Brasil, número que está muito abaixo da necessidade, já que o país comportaria 500 clinicas. Nos Estados unidos, por exemplo, existem 800 clinicas em atividade.

DM- Têm crescido o número de clínicas no país?

Mariza- É uma área que tem crescido bastante. A cada ano esta aumentando o número de profissionais interessados em iniciar serviços e fazer uma formação para isso. Ainda não existe uma cultura médica neste sentido, porque boa parte dos profissionais que estão em atividade não tiveram noções de medicina hiperbárica na faculdade, então tiveram que tomar conhecimento posteriormente, muitos nem chegam a saber que o que é. Entretanto existe entre os pacientes um interesse cada vez maior de tentar buscas novas alternativas, com alguma freqüência o próprio paciente fala sobre esta possibilidade de tratamento para o seu médico. A divulgação acaba sendo feita de maneira automática, com a instalação dos serviço e os resultados do tratamento as pessoas vão indicando. Em Passo Fundo, por exemplo, onde não existia este tipo de tratamento, no primeiro dia de funcionamento do serviço já tinha três pacientes agendados, que aguardavam a instalação da clínica para poder se tratar.